domingo, 18 de novembro de 2012

Infelizmente estarei a morrer ..


    Se por um instante, Deus se esquecesse que sou uma marioneta de trapos e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas certamente pensaria tudo o que digo. Daria valor ás coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam; dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que cada minuto que fechamos os olhos perdemos 60 segundos de luz; andaria quando os outros parassem, acordaria quando os outros dormem; escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom e longo momento contigo.
    Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria-me simplesmente e atirar-me-ia de braços ao chão, deixando ao descoberto não apenas o meu corpo como também a minha alma.
     Se eu tivesse um coração  escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh, sobre as estrelas um poema de Mario Benedetti, e uma canção de Serrat, seria a serenata que ofereceria á lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
    Se eu tivesse um pedaço de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer ás pessoas- adoro_te, amo-te-. Convenceria cada homem e cada mulher que são os meus favoritos e viveria do amor.
    Aos homens, provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar; a uma criança, daria asas, mas  deixaria que aprendesse a voar sozinha; aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice mas sim com o esquecimento.
    Tantas coisas aprendi com vocês, os homens e mulheres; aprendi que o mundo inteiro quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subi-la; aprendi que quando um recém nascido aperta pela primeira vez a sua pequena mão ao dedo do pai, o tem prisioneiro para sempre; aprendi que um homem só pode olhar outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
    São tantas as coisas que pode aprender com vocês, mas finalmente não poderão servir de muito, porque quando me conseguirem olhar para dentro deste disfarce, infelizmente estarei a morrer...

Hoje vou

Quando acordei e passei à frente do espelho a imagem que lá se encontrava já não era a minha. Sim, em poucos meses tinha modificado muito... tinha alterado a minha visão de uma vida que ficou para trás, tinha alimentado a alma com palavras, o espírito com amor... e para quê? Para quê, se hoje acordo e o céu não está azul?
Trago um sorriso mentido, uma alegria fingida... porque o sol já não brilha... para mim... trago um corpo bonito com uma alma apagada... porque a lua já não sorri... para mim...
Hoje vou deixar de amar quem amo, de querer quem quero... vou deixar de sorrir só porque me apetece... vou deixar de cantar o amor e o justo... vou deixar de gritar a liberdade e o perdão... vou deixar de correr para a vida e simplesmente deixar que ela passe... por mim...
Vou voltar a ser quem era... alegre de olhos inchados e tristes... indiferente à brisa que me chama... ao mar que se entrega... à águia que clama o eu que se liberta e voa...voa...
Hoje vou desistir de mim... dos meus sonhos... vou até desistir das lágrimas... do sofrer... vou apenas ser alguém... que me representará nesta vida de teatros constantes, de frases estudadas, de sentimentos treinados e aprendidos... de voz bonita com palavras esperadas, correctas... de gargalhadas contidas e discretas...
Hoje vou desistir de mim... talvez assim seja mais feliz...